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Comprariam cerveja caseira?

Enviado: sábado out 20, 2007 15:04
por bmxutos
Bom, para já esta pergunta é apenas académica mas acaba por servir como amostra para um estudo que necessariamente terá de ser mais aprofundado sobre a viabilidade da existência de uma cerveja caseira, produzida em muitas pequenas quantidades mas com uma distribuição alargada, eventualmente por correio.

Como presumo que já se tenham apercebido, eu não produzo cerveja nem tenho intenções de o fazer nos próximos tempos, mais por uma questão de disponibilidade do que por falta de interesse. Interessam-me mais outras áreas do conceito global de cerveja do que propriamente a parte de produção. Mas, tendo já degustado algumas cervejas caseiras portuguesas de tanta qualidade, faz-me confusão como não se cria a possibilidade e um mecanismo de fazer chegar essas cervejas a mais pessoas, sem que por trás tenha de estar um conceito puramente comercial. Acho que quase todos aqui andamos por amor à camisola do que para fazer dinheiro. E o CdM é um bom exemplo disso: só prejuízo!!! :)

Bom, vou entar colocar uma "poll" para saber a vossa opinião. Mas se puderem escrever qualquer coisa para além de apenas dizerem que sim ou não eu agradecia. Só para ficar com uma ideia da viabilidade do conceito. Abraço.

Enviado: sábado out 20, 2007 18:08
por Rasec
Muito dificilmente compraria. O conceito da cerveja caseira é esse mesmo, ser caseira. Essa cerveja está muito susceptível a contaminações, a oxidações, enfim. Além de que o transporte por correio normal é o pior inimigo da estabilidade da cerveja (calor, oscilações, etc.). Para comprar, teria de conhecer muito bem o produtor, saber o que vou adquirir, ter experimentado e gostado muito, entre outras coisas.


Para mim, o ideal está em criar novas micro cervejarias, muito longe do conceito amador da cerveja caseira, mas sim numa aposta profissional de diferenciação pela qualidade tal como já falamos aqui, o mesmo conceito que está neste momento em alta na Dinamarca e EUA por exemplo. Aqui sim, podemos apostar em comercialização e distribuição, dado que há condições de produção e embalamento muito diferentes das condições de uma cervejaria caseira.

Enviado: sábado out 20, 2007 23:17
por emsfc
Votei: compraria se soubesse a origem, receita etc.
Compraria se conhecesse o produtor, se pudesse provar antes e se a fosse eu próprio buscar ao local onde foi feita. Isto para evitar os problemas que o transporte poderia acarretar para a qualidade da cerveja, já que normalmente, e tal como o Rasec disse, estas cervejas são mais "frageis" comparadas com a cerveja industrial.
Penso que o Homebrewing em Portugal ainda está muito pouco desenvolvido comparando com os EUA ou o Brasil. Basta dar uma vista de olhos em sites e forums desses países, onde os cervejeiros caseiros têm autenticas micro cervejarias em casa.
Penso que para consumo proprio vale a pena produzir cerveja caseira, mas para vender já se torna um caso mais complicado. E se estivermos a falar em vender de forma "legal" ainda pior, já que, para além das questões fiscais, existem muitos outros pormenores a ter em conta, porque afinal de contas, uma micro cervejaria não deixa de ser uma industria alimentar.

Enviado: domingo out 21, 2007 5:09
por ptlsousa
Rasec Escreveu:Muito dificilmente compraria. O conceito da cerveja caseira é esse mesmo, ser caseira. Essa cerveja está muito susceptível a contaminações, a oxidações, enfim. Além de que o transporte por correio normal é o pior inimigo da estabilidade da cerveja (calor, oscilações, etc.). Para comprar, teria de conhecer muito bem o produtor, saber o que vou adquirir, ter experimentado e gostado muito, entre outras coisas.


Para mim, o ideal está em criar novas micro cervejarias, muito longe do conceito amador da cerveja caseira, mas sim numa aposta profissional de diferenciação pela qualidade tal como já falamos aqui, o mesmo conceito que está neste momento em alta na Dinamarca e EUA por exemplo. Aqui sim, podemos apostar em comercialização e distribuição, dado que há condições de produção e embalamento muito diferentes das condições de uma cervejaria caseira.


A diferença entre a cerveja caseira e artesanal é bastante grande...

Fazer 30 litros é uma coisa... 180 litros já não é bem um passatempo, apesar de demorar o mesmo tempo!

emsfc Escreveu:Basta dar uma vista de olhos em sites e forums desses países, onde os cervejeiros caseiros têm autenticas micro cervejarias em casa.


Acho que não tens entrado em casa dos cervejeiros caseiros certos... :D


Já agora, onde se situa a fronteira entre cerveja caseira e artesanal? É na quantidade que se produz?

emsfc Escreveu:Votei: compraria se soubesse a origem, receita etc.
Compraria se conhecesse o produtor, se pudesse provar antes e se a fosse eu próprio buscar ao local onde foi feita. Isto para evitar os problemas que o transporte poderia acarretar para a qualidade da cerveja, já que normalmente, e tal como o Rasec disse, estas cervejas são mais "frágeis" comparadas com a cerveja industrial.


Acho que todos nós compramos queijo, fumados, doces, compotas e vinho sem conhecer o produtor, sem marca conhecida, sem comprar no local de produção e tendo conhecimento do impacto do transporte nesses produtos.

Eu sei que a preocupação máxima está na higiene praticada no fabrico. E convém lembrar que não é o equipamento que faz a cerveja, são as boas práticas.

Sinceramente, eu sempre defendi que "a" melhor cerveja do mundo, enviada pelo correio pode tornar-se numa má experiência.

Quanto à estabilização de que o Rasec falou, esse é um grande desafio de qualquer cervejeiro. Mas não é em vão que a cerveja caseira/artesanal é um produto "vivo". Acredito nisto e levo-o à prática!
Já provei cervejas que fiz com quase dois anos (é difícil resistir a beber tudo e ao pedido de uma garrafa, que já é a última, dos amigos...). Confesso que fico muito contente com os resultados. Vale a pena envelhecer uma cerveja.
Possuo algumas de "reserva" e um lote muito especial que está a fermentar por um ano (feita à "OldSchool").

Acho que neste ponto a cerveja é como o vinho. "... com a idade, os maus azedam e os bons apuram."

Enviado: domingo out 21, 2007 10:39
por emsfc
ptlsousa Escreveu:Acho que todos nós compramos queijo, fumados, doces, compotas e vinho sem conhecer o produtor, sem marca conhecida, sem comprar no local de produção e tendo conhecimento do impacto do transporte nesses produtos.


Eu não compro. Se compro produtos artesanais são sempre em supermercados ou lojas, o que me dá garantias minimas da qualidade desses produtos.
Não tenho nada contra a cerveja artesanal, inclusivamente estou quase a tornar-me um cervejeiro caseiro, e gostaría que este fenómeno se desenvolvesse em Portugal, tal como já está em outros países.
Quanto ao passo seguinte de fazer negóco com elas, isso já é outra história. Há garantias que têm que ser dadas a quem compra e a quem consome. Por isso digo que só compraria se conhecesse o produtor.

Abraço

Enviado: domingo out 21, 2007 12:00
por canecao
emsfc Escreveu:
ptlsousa Escreveu:Acho que todos nós compramos queijo, fumados, doces, compotas e vinho sem conhecer o produtor, sem marca conhecida, sem comprar no local de produção e tendo conhecimento do impacto do transporte nesses produtos.


Eu não compro. Se compro produtos artesanais são sempre em supermercados ou lojas, o que me dá garantias minimas da qualidade desses produtos.


Discordo completamente. Quantas vezes já fui a pequenas feiras locais, em pequenas vilas ou mesmo aldeias e comprei aqueles produtos que estão para lá no mercado, sejam azeitonas retalhadas, queijos sem qualquer rótulo ou bolinhos caseiros. Que sabor...!!! É verdade que são esses que aparecem naquelas noticias da tv a serem controlados pela ASAE mas acredito que se os nossos pais, avos e os avos destes chegaram até aqui, não foi certamente pela existência da ASAE, rotulagem ou grandes controlos tecnológicos. Poque é que eles não controlam a qualidade dos mcdonalds, a limpeza, o mal que a coca-cola faz ou não faz? Não convem, não é? Mas controlar o pequeno produtor que vive exclusivamente disso já faz todo o sentido. As pessoas vêm e acabam por comer aquilo que os media e os políticos querem. Eu não vou por ai.

Portanto respondi: experimentava pelo menos 1 vez para saber se gostava. se não gostasse ou achasse que que estava estragada ou com defeito não voltava a experimentar.

Enviado: domingo out 21, 2007 14:36
por ptlsousa
emsfc Escreveu:ptlsousa wrote:
Acho que todos nós compramos queijo, fumados, doces, compotas e vinho sem conhecer o produtor, sem marca conhecida, sem comprar no local de produção e tendo conhecimento do impacto do transporte nesses produtos.


Eu não compro. Se compro produtos artesanais são sempre em supermercados ou lojas, o que me dá garantias minimas da qualidade desses produtos.
Não tenho nada contra a cerveja artesanal, inclusivamente estou quase a tornar-me um cervejeiro caseiro, e gostaría que este fenómeno se desenvolvesse em Portugal, tal como já está em outros países.
Quanto ao passo seguinte de fazer negóco com elas, isso já é outra história. Há garantias que têm que ser dadas a quem compra e a quem consome. Por isso digo que só compraria se conhecesse o produtor.


Venho avisar que a "qualidade mínima" que referiste é apenas no aspecto da higiene. Eu sei de fonte segura que os produtos tradicionais produzidos para os hipermercados não são feitos com tanto empenho... Preocupam-se mais com o aspecto, a embalagem e a conservação dos produtos durante largos períodos de tempo.
E na maioria dos casos, o produtor de um determinado produto tradicional vendido na maioria dos hipermercados em Portugal, é o mesmo. Mudam a etiqueta, o nome do produto e a embalagem...

Como disse um amigo, a cerveja caseira/artesanal vale pelo sabor. O aspecto pode não ser o melhor (turvação e depósito) mas justifica o sabor. Considerou-a como um produto Gourmet. Só para conhecedores...

No aspecto das garantias ao consumidor, o que disseste é verdade. Mas acho que muita gente se preocupa em obter licenças de produção (que é a prova de garantia para o consumidor) e depois não segue boas práticas.
Todos nós comemos em restaurantes...
Visitas a cozinha antes da refeição?

Este tema dá pano para mangas...

Enviado: domingo out 21, 2007 18:31
por emsfc
ptlsousa Escreveu:Este tema dá pano para mangas...


Tal como disses-te, e bem, este pano dá paro para mangas, e por isso não vale a pena estarmos a alongar-nos neste assunto. Eu sou apologista e defensor das coisas serem feitas com o máximo de qualidade possível, quer a nível das características dos produtos, como a nível de higiene. Mas também sou suspeito para falar, já que sou Eng.º Alimentar e pagam-me para controlar a qualidade e todas essas questões de higiene, e por isso tenho que puxar a brasa à minha sardinha.
Não digo que os produtos tradicionais não tenham qualidade e que não sejam bons, mas não confio. E se os hipermercados compram esses produtos aos produtores e nem se preocupam com essas tais questões de higiene, o problema é lá com eles. Mas se eu comprar um produto desses num continente ou coisa parecida e estiver estragado e eu apanhar uma intoxicação alimentar ou algo do género, é no livro de reclamações do hipermercado que eu vou reclamar, não é no do produtor. Quem fica mal visto são eles!
Quanto à história de antigamente toda a gente comia tudo e ninguém morria por causa disso, só tenho uma coisa a dizer. Antigamente as pessoas morriam e muitas vezes não se chegava a saber porquê... Na minha terra diziam que morriam de uma coisa ruim.
Nestas questões de higiene alimentar, é a saúde pública que está acima de tudo, e por isso, se a minha saúde está em jogo, eu exigo e só compro produtos que me dêm garantias. Não digo com isto que algumas das exigências que fazem não sejam um exagero, mas paciência.
Mas já me estou a alongar muito neste assunto e não tem muito interesse, até porque em produtos como a cerveja e o vinho os perigos microbiológicos não são muito significativos, devido ao álcool, à acidez, etc... No entanto os perigos químicos e físicos continuam lá!

É tudo uma questão de mentalidade! Se calhar por estar ligado à área alimentar esteja mais sensível a estas questões de higiene e qualidade, e por isso, para mim, são questões que estão acima do "romantismo" dos produtos tradicionais feitos tal como eram antigamente, com produtos naturais, etc. etc. etc.... São opiniões!

Abraço

Enviado: domingo out 21, 2007 18:50
por ptlsousa
Não digo que os produtos tradicionais não tenham qualidade e que não sejam bons, mas não confio. E se os hipermercados compram esses produtos aos produtores e nem se preocupam com essas tais questões de higiene, o problema é lá com eles.


Não estava a mencionar a falta de higiene na produção mas sim a "diferença" entre o produto feito para vender localmente e nos hipermercados.

Como estás ligado à área alimentar, sabes com certeza que nas grandes superfícies a maioria dos consumidores não é conhecedora dos produtos/processos de fabrico e muitas das vezes compram "gato por lebre", que no entanto, não possui perigo para a saúde pública.

Eu compreendo o teu ponto de vista e dou importância aos requisitos de HST, mas preocupo-me bastante mais com a qualidade (sabor, aparência, etc), talvez por já conhecer as práticas que me asseguram a higiene, ter estudado nessa área e ter o conselho de profissionais nesse sector.

Já vi que quando tiver uma dúvida venho falar contigo... :D :D :D

Enviado: domingo out 21, 2007 18:52
por emsfc
ptlsousa Escreveu:Já vi que quando tiver uma dúvida venho falar contigo... :D :D :D


Estás à vontade :D

Enviado: domingo out 21, 2007 20:29
por bmxutos
Boa discussão!!!

Obrigado pelas vossas ideias. Dão-me uma perspectiva de como posso ajudar a desenvolver um conceito de cerveja caseira, artesanal, etc, no nosso país.

Só para que conste e sem querer aprofundar muito para não influenciar futuros posts (como se a minha opinião tivesse assim tanto valor... :roll: ), devo acrescentar que sou um acérrimo defensor de produtos feitos de modo artesanal, cerveja incluida. Concordo, em grande parte, com aquilo que o canecao e o ptlsousa disseram. Também me preocupa a questão da higiene e de possíveis infecções mas, se quero ter segurança nesse aspecto, bebo Sagres e SB ou então Cristal (para que o meu amigo Rasec não fique aborrecido comigo).

Abraço,

Enviado: domingo out 21, 2007 21:32
por emsfc
O facto de um produto ser artesanal não implica que ao ser produzido não se tenha em atenção as questões de higiene. Uma coisa não implica a outra, e por isso, pelo facto de para mim serem importantes as questões de higiene, não quer dizer que seja contra os produtos tradicionais. Muito pelo contrário, os produtos tradicionais fazem parte da nossa cultura. Dou um exemplo, o queijo Serra da Estrela é um dos nossos produtos tradicionais, e tanto é fabricado em indústrias alimentares, como na cozinha da D. Rosa. Se me derem a escolher prefiro os da indústria, porque me dão mais garantías.
Eu apenas gosto de saber a origem dos produtos que consumo, e não como ou bebo qualquer coisa, só porque é tradicional.

Enviado: domingo out 21, 2007 22:29
por bmxutos
emsfc Escreveu:O facto de um produto ser artesanal não implica que ao ser produzido não se tenha em atenção as questões de higiene. Uma coisa não implica a outra, e por isso, pelo facto de para mim serem importantes as questões de higiene, não quer dizer que seja contra os produtos tradicionais. Muito pelo contrário, os produtos tradicionais fazem parte da nossa cultura. Dou um exemplo, o queijo Serra da Estrela é um dos nossos produtos tradicionais, e tanto é fabricado em indústrias alimentares, como na cozinha da D. Rosa. Se me derem a escolher prefiro os da indústria, porque me dão mais garantías.
Eu apenas gosto de saber a origem dos produtos que consumo, e não como ou bebo qualquer coisa, só porque é tradicional.


Tradicional, caseiro, artesanal, rústico...

Caro Edson, pedi a vossa opinião sobre este assunto porque acho importante ficarmos com uma ideia sobre a produção artesanal de cerveja pois poderá surgir a oportunidade de, através da nossa comunidade, desenvolvermos um projecto nesta área. Não tenho nada pensado ou definido mas acho que podemos ser os impulsionadores de algo que entretanto surja. Não apenas eu mas todos aqui no CdM. E seja isso uma microcervejaria ou um projecto maior ou menor.

Preferes coisas rotuladas e certificadas. Tudo bem! Eu, por exemplo, não faço questão! E por ser tradicional ou característico de uma região também não faz com que eu vá logo consumir o produto. Mas não acho que as coisas tenham de estar todas hermeticamente fechadas, pasteurizadas ou desinfectadas com álcool. Se calhar, já tive que tomar algumas vezes imodium ou ultra-levur por causa disso. Mas não será isso que me irá fazer mudar de opinião. Respeito muito os eng.º químicos, engº alimentares e outras profissões a que este assunto diz fortemente respeito. No entanto, lamento mas não sou dessa área pelo que não me preocupo tanto. Quando apanhar a primeira gastroenterite talvez deixe de pensar assim. Até lá, respeito totalmente a tua posição e opinião, como penso que tu também farás com a minha e com a de outros que possam partilhar estas ideias.

Abraço,

Enviado: domingo out 21, 2007 22:59
por emsfc
bmxutos Escreveu:Até lá, respeito totalmente a tua posição e opinião, como penso que tu também farás com a minha e com a de outros que possam partilhar estas ideias.


Claro que respeito. Estamos todos aquí a dar as nossas opiniões pessoais. Eu tenho a minha opinião e vocês as vossas. Faz-me lembrar as discussões com o nosso amigo Thomas acerca da Lei da Pureza :D
Quando falo nestas questões todas de higiene, é num ponto de vista mais "industrializado". Todas as empresas agro-alimentares são obrigadas a isso, quer sejam grandes ou pequenas. A partir do momento que tens, por exemplo, uma micro cervejaría tua a produzir para comercializar, és obrigado a isso. É a lei.
Não me está a passar pela cabeça estabelecer um plano de HACCP para a minha garagem onde vou fazer a minha cerveja caseira :D :D
Se algum día as coisas tomassem proporções mais indústriais, e começa-se a vender, é claro que tería que tratar disso. Até por uma questão de protecção pessoal. As empresas são responsáveis por aquilo que produzem.
Quanto ao eventual projecto, estou dentro!!!!

Abraço

Enviado: domingo out 21, 2007 23:10
por bmxutos
Caro Edson,

acredita que a frase que tu citaste no teu post não era apenas um exercício de retórica. Respeito e muito a tua opinião assim como a de todos os outros que escrevem aqui no fórum. Podemos discordar em algumas ideias e conceitos mas é através das divergências que se estabelecem os melhores consensos. E não duvido que também respeites a minha e a opinião dos outros. Aliás, sem desprimor de muitos outros excelentes membros, acredito que se tivéssemos mais uns 20 emsfc's aqui no fórum, a microcervejaria já estaria a laborar e a despachar para o estrangeiro. :wink:

Abraço,

Enviado: segunda out 22, 2007 17:14
por VicMaP
Ainda não tinha participado neste interessante debate porque como nunca se me tinha posto a questão, nunca ponderara devidamente.
E as vossas respostas ajudaram.
Ora bem, digamos que, por exemplo, aos membros aqui do fórum que fazem cerveja, e pelo respeito que sei todos terem pela cerveja, não teria grandes dúvidas em comprar, até porque sei que os "estragos" da viagem seriam minimizados, apesar de ter consciência de que os correios ou outras empresas de entrega, nem sempre manuseiam as encomendas da melhor forma.
Bem, mas já comprei cerveja através da net, e nesse aspecto nem tenho razão de queixa.
Já a compra a particulares desconhecidos, a questão nem se põe. Apesar de não ser um fundamentalista, gosto de saber o que como ou bebo, e um produto não certificado é sempre um risco. No entanto, ressalvo o caso de ser alguém que me fosse recomendado.
Em qualquer dos casos, há ainda uma questão que me parece ainda não ter sido abordada, e que é a questão fiscal. Quem vende ou compra qualquer produto, sabe que pelo meio há sempre impostos a pagar, no caso vertente, os que incidem sobre as bebidas alcoólicas.
Ora assim sendo, não haveria aqui uma infracção?
Claro que todos sabemos que toda a gente aluga casas no Algarve e Alentejo, e não paga nada ao Estado por essas rendas, mas mesmo assim, gostava de saber a vossa opinião sobre esse aspecto

Abraço

Vic

Enviado: segunda out 22, 2007 17:24
por canecao
Desconheço a legislação sobre esse aspecto mas concordo contigo, alguma coisa o estado deve exigir. esses gajos não são parvos... 8)

Como qualquer coisa que se vende, pelo menos em teoria, terá de ser constitida uma empresa, terá de ser passada factura, terá de etc, etc.

Acho que é por isso que ainda ninguem se aventurou num negócio destes. os encargos devem ser enormes e a rentabilidade nula. Ou então dá prejuizo!!! :roll:

Enviado: segunda out 22, 2007 17:41
por emsfc
As questões fiscais são uma exigência da lei, tal como as questões de higiene que falei acima.
Para se venderem os produtos é necessário a tal criação de uma empresa, o que vai implicar pagamento de importos, e os cuidados de higiene, nomeadamente o plano de HACCP, já que é uma empresa do ramo alimentar. Isto se não quiserem ter a ASAE à perna.
Mas isso é como tudo, há sempre volta a dar. De certeza que toda a gente conhece, ou já conheceu, pessoas que produzem vinho em casa e que vendem a particulares. São situações normais e que acontecem frequentemente, pelo menos na minha terra.
Nestas questões há sempre duas formas de fazer as coisas: legalmente, o que implica não ganhar tanto dinheiro já que os custos são mais elevados, e ilegalmente, mais lucros mas com o risco das coisas darem para o torto. Depois cada qual escolhe a forma como quer fazer as coisas.

Abraço

Enviado: segunda out 22, 2007 18:19
por ptlsousa
"Legal" significa custos.
Custos significam menos lucro.
Pouco lucro significa esforço em minimizar custos (reduzir no malte, lúpulo, utilizar matéria-prima mais barata, etc).
Ou seja, produzir cerveja sem sabor, cor ou qualquer coisa que a torne especial.

Lembrem-se que o Thomas já fez alguma coisa neste sentido...
Se quiserem pagar os impostos relacionados com a produção de cerveja vão ter surpresas...

Enviado: segunda out 22, 2007 18:42
por emsfc
ptlsousa Escreveu:Se quiserem pagar os impostos relacionados com a produção de cerveja vão ter surpresas...


Sim porque os impostos das bebidas alcoolicas pagam-se também em função da percentagem de alcool da bebida. Apesar de não ser das bebidas com mais alcool, o que se paga pelos impostos não deve ser pouco.

Penso que para conseguir montar uma micro cervejaria e conseguir mantê-la terão que haver alguns apoios.
Dou um exemplo: as Cervezas Alhambra, onde estive a trabalhar até há pouco tempo, já estiveram quase na falência. O que lhe valeu foram algumas das entidades de Granada, entre as quais o Ayuntamiento (Câmara Municipal), que lhes deu um apoio, e que fizeram com que na cidade de Granada, a maioria dos bares e cafés servissem sempre Alhambra. A partir daí a marca conseguiu estender-se ao resto da Andaluzía, o que a tornou numa das marcas com maior quota de mercado da região. Para breve está programada a mudança para umas instalações novas e mais recentes. Há pouco tempo foi comprada pela Mahou, do grupo San Miguel. Não porque estivessem mal financeiramente, mas porque se tornou apetecível ás maiores empresas.
Claro que neste caso estamos a falar de Espanha, e de uma empresa de grande escala, mas penso que um apoio como este sería o ideal para conseguir levar avante um projecto de uma micro cervejaría. Mas lá está, é preciso coragem para arriscar...
Talvez, com um projecto bem feito, se conseguisse um financiamento do QREN, a fundo perdido.

Abraço

Enviado: segunda out 22, 2007 18:52
por VicMaP
ptlsousa Escreveu:"Legal" significa custos.
Custos significam menos lucro.
Pouco lucro significa esforço em minimizar custos (reduzir no malte, lúpulo, utilizar matéria-prima mais barata, etc).
Ou seja, produzir cerveja sem sabor, cor ou qualquer coisa que a torne especial.

Lembrem-se que o Thomas já fez alguma coisa neste sentido...
Se quiserem pagar os impostos relacionados com a produção de cerveja vão ter surpresas...


Claro que tem que ser assim. E também se sabe que há sempre quem dê a volta à coisa (que por vezes dá para o torto, há sempre um vizinho mais "zeloso").
E então, chegados aqui, acho que o cervejeiro caseiro tem 2 caminhos á escolha: o primeiro, é manter-se amador e, além de a beber, faz chegar aos amigos e conhecidos a sua cerveja.
O outro, mais difícil, é tratar de comercializar o seu serviço, evoluindo para a micro-cervejaria. Ora como sabemos que há muitas micro-cervejeiras em vários países que produzem cerveja de grande qualidade. Falta conhecer a forma de aí chegar, porque não acredito que essas micro-cervejeiras tenham prejuízo, pelo menos a maioria delas, já que ninguém trabalha para aquecer.
E já agora, ptlsousa, o problema, penso eu, não é haver menos lucro, mas sim que ao menos não dê prejuízo
Abraço

Vic

Enviado: segunda out 22, 2007 18:55
por barbas
E eis que um tema que parecia à primeira vista inócuo, dá tanto pano para mangas :D

Tendo a vantagem de já ter lido as respostas dos outros membros, a minha opinião vai de encontro àquilo que o bmxutos, canecao e ptlsousa defendem, ou seja, arrisco algumas vezes em produtos caseiros que, naturalmente, não terão a garantia de qualidade de um produto certificado por uma entidade independente ou por um grande player comercial, mas que, na grande parte das vezes, dado o carácter artesanal da sua fabricação, me trazem grandes alegrias às papilas gustativas :D A minha avaliação quanto à higiene, nesses casos, é, naturalmente, meramente subjectiva, e é isso que me leva a votar no "Só compraria se soubesse a origem, receita, etc.".

Quanto ao temas que pelo meio se introduziram neste post, acho que no nosso país quase tudo falta para termos cervejas de qualidade à disposição do consumidor final: fabricação, distribuição e retalho.

Na fabricação, existem alguns (poucos) brewpubs que fabricam apenas para consumo próprio nos estabelecimentos. O caso do BeerHouse na Madeira, a Fábrica do Day em Viseu (ainda funciona?) e o Ministério da Cerveja em Faro (não conhecia, mas li aqui no fórum). Ainda temos a República da Cerveja cujas cervejas são fabricadas pela Unicer e a Lusitana (ainda fabricam em Carnaxide?). Ou seja, não há alternativa, nas prateleiras dos supermercados. Talvez com a Pedras :mrgreen:

Na distribuição, face ao exposto, claro que não há cerveja artesanal portuguesa disponível para vender. Resta, nas majors, importar algumas marcas que fazem parte do portefólio da empresa mãe ou, no caso dos distribuidores mais pequenos, ir buscar algumas cervejas reconhecidas pelo seu valor (o caso das disponíveis no British Bar) ou com origens geográficas exóticas (Cuba, China, Marrocos, etc.) mas qualidade sofrível.

Quanto ao retalho, o problema tem ainda outra vertente. Primeiro, tem de jogar com a que a distribuição dispõe para oferecer, por outro tem de ter uma oferta consistente com aquilo que é a procura do consumidor final. Parece-me que aqui reside o busílis da questão. O consumidor final está interessado em novas cervejas? Se sim, estará preparado para pagar mais por uma cerveja de qualidade? Toda a gente aqui no fórum responderia que sim, mas quem somos nós? Representamos 1%, 5% da população do país?

Não faço ideia do que o Bruno tem em mente (mas estou curioso :D ). Tendo em conta o exemplo da Dinamarca ou da Itália, onde as micros são hoje uma realidade incontornável, poderá ser esse o caminho a seguir cá em Portugal. Temos resolvido o problema da produção!

A distribuição poderá passar pelos distribuidores independentes ou por um sistema próprio que, no entanto, acarretará mais custos.

A tarefa final será, eventualmente, a mais difícil: criar hábitos de consumo de cervejas de qualidade. Haverá certamente um nicho de mercado a explorar (veja-se o preço que se pagam por alguns vinhos), mas será esse o maior desafio num país habituado a pedir "uma cerveja" em vez de chamá-la pelo nome.

Fernando

Enviado: segunda out 22, 2007 22:01
por ptlsousa
Sim porque os impostos das bebidas alcoólicas pagam-se também em função da percentagem de álcool da bebida. Apesar de não ser das bebidas com mais álcool, o que se paga pelos impostos não deve ser pouco.


O problema não está no quanto se paga (que até é relativamente pouco).
O que queria referir era a reacção dos funcionários quando se tenta pagar...
Tentem e depois digam qualquer coisa (não quero estragar a surpresa). :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen:

Enviado: terça out 23, 2007 1:07
por ptlsousa
VicMaP Escreveu:E já agora, ptlsousa, o problema, penso eu, não é haver menos lucro, mas sim que ao menos não dê prejuízo


Eu "corro por amor à camisola"... Não é por acaso que quase a totalidade da minha produção é oferecida ou bebida perante o meu olhar (não, não tenho amigos alcoólicos :D ). E não te conto o quanto já gastei em equipamento...
A cerveja até fica barata mas tudo o que uma micro-cervejaria necessita para a meter na garrafa é que é extremamente caro (incluindo a garrafa)...

barbas Escreveu:O consumidor final está interessado em novas cervejas? Se sim, estará preparado para pagar mais por uma cerveja de qualidade? Toda a gente aqui no fórum responderia que sim, mas quem somos nós? Representamos 1%, 5% da população do país?


Isso é bem verdade! Mas já repararam que as pessoas que afirmam que uma cerveja belga é cara (quando o seu preço é 1,50€), pedem uma água numa esplanada e pagam quase o mesmo?

Enviado: terça out 23, 2007 11:34
por emsfc
ptlsousa Escreveu:Isso é bem verdade! Mas já repararam que as pessoas que afirmam que uma cerveja belga é cara (quando o seu preço é 1,50€), pedem uma água numa esplanada e pagam quase o mesmo?


Eu já paguei 2.50€ por uma Super Bock no Cais de Gaia... Penso que foram os meus 2.50€ mais mal empregues até hoje. No entanto na semana passada dei 3.30€ por uma Orval e não me arrependo nada.
Penso que o problema também está na cultura. Em Portugal uma cerveja é Sagres ou SB e por isso pode-se por a questão nestes termos: quanto está o consumidor dispoto a pagar por uma cerveja (seja Sagres, SB, Chimay, Erdinger,...)? Para o português comum é tudo cerveja. Pessoas que tenham alguma "cultura cervejeira" conseguem distinguir as coisas e coloca-las em patamares diferentes, e nunca colocamos em pé de igualdade uma SB e uma Chimay.
Penso que é uma questão de cultura e tudo passa por dar a conhecer os produtos. Quem bebe uma vez uma Chimay, por exemplo, nunca mais quer outra coisa. Aconteceu comigo, e já aconteceu com pessoas a quem dei a provar.
Claro que depois há outroa factores que podem influenciar, como é o caso do poder de compra. Devido aos preços elevados não se pode "obrigar" toda a gente a beber Chimay em vez de SB.
Eu comparo sempre o caso das cervejas ao dos vinhos. Podemos encontrar vinho Xicote a 1€ a garrafa, e um Reserva do Esporão a 25€ a garrafa, ou até mais. Apesar da Herdade do Esporão vender vinhos a preços bem acima de 1€/garrafa, não é por isso que tem dificuldades financeiras por ter falta de vendas.
O problema está na cultura portuguesa, que sempre foi mais virada ao vinho que propriamente à cerveja. O português é capaz de dar uns 7€ (já não falo nos 25€) por uma garrafa de Esporão porque sabe que é um bom vinho. No entanto acha caro dar 2.50€ por uma Chimay.
É tudo uma questão de cultura e é isso que se tem que mudar se algum día queremos ter cerveja produzida em Portugal com melhor qualidade.

Enviado: terça out 23, 2007 12:41
por VicMaP
emsfc Escreveu:[O problema está na cultura portuguesa, que sempre foi mais virada ao vinho que propriamente à cerveja. O português é capaz de dar uns 7€ (já não falo nos 25€) por uma garrafa de Esporão porque sabe que é um bom vinho. No entanto acha caro dar 2.50€ por uma Chimay.
É tudo uma questão de cultura e é isso que se tem que mudar se algum día queremos ter cerveja produzida em Portugal com melhor qualidade.


Edson,

a cultura vinícola no nosso país tem séculos e é uma das "marcas" do país. Mas tal não existe só cá. O mapa europeu da cultura de bebidas alcoólicas (de que se exceptuam as espirituosas) é muito curioso. Há uma espécie de diagonal que atravessa a Europa que separa os países latinos - mais produtores de vinhos - dos outros, Alemanha, Bélgica, Holanda, Grã-Bretanha e países nórdicos, onde prevalece a cerveja. E penso que essa tradição não se mudará nunca, embora naturalmente possa haver um incremento a nível cervejeiro. A França, que é "O" país vínicola por excelência, já tem muitas micro-cervejeiras e inúmeros cervejeiros particulares.
O que referes em relação à SB versus Chimay é verdade, mas o peso do poder de compra é incontornável. Imagina um casal médio, com ordenados na casa dos 1.000, 1.000 e poucos euros cada um. Vão fazer as compras do mês e a bebida de casa é a cerveja. É óbvio que é impensável trazerem uma ou duas grades de Chimay. Trazem duas grades de Sagres ou SB, ou, quando muito, decidem-se a gastar mais 2 ou 3 euros, e trazem Bohemia. E já não vão mal.
Claro que gostam mais da Chimay, mas que remédio têm senão sujeitar-se ao que está ao alcance da bolsa

Abraço

Vic

Enviado: terça out 23, 2007 13:15
por Rasec
Continuam a comparar o incomparável. :wink:



Uma Lager não tem o mesmo objectivo que uma belgian strong ale quando é pensada, produzida, embalada, distribuida ou publicitada.

Têm mercados diferentes, públicos alvo diferentes, momentos de consumo totalmente diferentes, etc.

Ninguém bebe uma Chimay Blue numa esplanada de praia no pico de verão com 30º à sombra...



Não custa o mesmo produzir uma Lager de 11,5ºP ou uma Strong Ale de 18ºP, nem ao grande produtor, nem ao cervejeiro caseiro!

Enviado: terça out 23, 2007 14:00
por emsfc
Entendo o teu ponto de vista, mas não estamos a comparar os preços de custo das cervejas. Todos nós temos a noção que os custos de produção de uma Chimay são superiores ao de uma Super Bock. Tal como tu dizes, são incomparáveis. Também entendo que ninguém vai beber uma Chimay Blue numa esplanada com 30ºC. No entanto, no inverno a mim também não me apetece beber um fino estupidamente gelado. Penso que há outro publico a atingir, e só não é maior por ignorância, porque simplesmente as pessoas não conhecem outras cervejas. Mas também sei que é uma situação que dificilmente mudará, mas paciência. As grandes empresas estão viradas simplesmente para o lucro imediato, e entendo essa política.

Abraço

Enviado: terça out 23, 2007 19:46
por barbas
Rasec Escreveu:Uma Lager não tem o mesmo objectivo que uma belgian strong ale quando é pensada, produzida, embalada, distribuida ou publicitada.


Penso que nisso estamos todos de acordo. A questão que eu queria de alguma maneira chamar a atenção é a apetência (ou não) dos portugueses para o consumo de cerveja de qualidade. Sabemos que para o vinho existe um mercado de nicho que tem um número restrito de consumidores mas que é bastante saudável e rentável para os produtores . Mas aqui, tal como o VicMaP referiu, temos uma tradição secular que se perpétua.

Mas a cerveja? Há mercado?

Eu diria que haverá mercado para um brewpub com bar para consumo próprio das cervejas (e eventualmente importações de qualidade) cujo target seríamos "nós", mas tenho algumas dúvidas na rentabilidade, neste momento, de uma micro com necessidades de engarrafamento e distribuição. Neste caso, para a operação ser rentável teria que ter uma faixa muito mais alargada de consumidores e não vejo a distribuição ou mesmo o retalho com grande vontade de "empatar" dinheiro em cervejas de 2 ou 3€, que trarão um turn-over muito mais lento que uma Sagres ou Super Bock.

O que acham? Estou muito pessimista? :?

Fernando

Enviado: quinta out 25, 2007 15:17
por VicMaP
Rasec Escreveu:Ninguém bebe uma Chimay Blue numa esplanada de praia no pico de verão com 30º à sombra...




Então, eu sou ninguém, Rasec :))
Porque até no Sahara bebo uma Chimay, se estiver a jeito :))

Vic