Canibalização do mercado português.

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RTS157
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Canibalização do mercado português.

Mensagempor RTS157 » quarta jul 26, 2006 12:24

Não sei se este será o local mais adequado para colocar esta mensagem mas deixo isso ao critério do administrador, caso queira mudar a sua localização.

Para mim, beber cerveja é mais do que um acto de hedonismo. Gosto de observar, pensar, ler e escrever sobre cerveja. Lamento que, em Portugal, isso se faça tão pouco. Tal é sintomático do actual estado do mercado cervejeiro português. Para dizer a verdade, esse mercado nunca chegou a arrancar, pelo menos no sentido da existência de concorrência. Desde há muitos anos que apenas duas ou três empresas dominam o mercado, lançando os produtos que lhes apetece, ao preço que lhes convém, sem terem em grande consideração aquilo que os consumidores procuram e desejam.

Vem isto a propósito da recente febre que assolou as grandes empresas "nacionais", que se lançaram numa corrida desenfreada pela comercialização de novos produtos. E se, por um lado, isso é algo de salutar, dado o limbo em que esta indústria se encontrou durante largos anos, por outro, acaba por limitar o aparcimento ou apenas manutenção das poucas empresa que tiveram a coragem de surgir e quebrar a hegemonia da Unicer e Centralcer.

Vejamos: Sagres Bohemia, Sagres Bohemia 1835, Sagres Selecção, Sagres Chopp, Sagres Zer0, Super Bock Green, Super Bock Twin, Decider, Super Bock Abadia, Super Bock Tango, Cristal Weiss.... Tudo isto nos últimos dois anos. Apesar dos anteriores 20 terem sido um completo deserto. E relativamente a isto há, mais uma vez, prós e contras: se é agradável ver a introdução (independentemente da qualidade do produto...) de cervejas do estilo weiss, dunkel e sidras, por outro isso provoca a canibalização do mercado. O que quero dizer com isto? Passo a explicar.

Quem tenha tido a oportunidade de viajar, já não digo por todo o mundo mas tão somente pela Europa, facilmente constata, através de uma visita a um supermercado ou a um café local, a quantidade de marcas e estilos de cerveja que estão disponíveis. Esta situação é menos notória em Espanha mas passe-se para França, Bélgica, Reino Unido, Holanda e outros e tal é facilmente perceptível. Aliás, se entrar num café e pedir apenas uma cerveja, é provável que fiquem a olhá-lo de forma estranha, esperando que indique a marca que pretende beber. Porque é que uma cerveja tem de ser loura, espuma branca e estupidamente fresca? Condições climáticas? E quando estão temperaturas negativas na Guarda ou Covilhã, será uma imperial gelada aquilo que nos apetece? Não será preferível uma porter, robusta, saborosa e reconfortante?

Neste aspecto, o mercado português é um case study. Com a existência, durante anos, de apenas dois produtos, os portugueses nunca ganharam o hábito de pedir uma cerveja pela marca ou pelo estilo. Mas, diga-se a verdade, a tal também nunca foram incentivados. Visite-se, por exemplo, a cadeia de hipermercados Continente. Há um corredor inteiro dedicado às cervejas. No entanto, ao percorrer os longos metros dessas prateleiras, encontra 15 a 20 marcas diferentes, todas elas à volta de produtos da Unicer ou Centralcer. E cervejas estrangeiras? E outras marcas? Será que têm receio que as pessoas sejam míopes e não vejam os produtos? Uma prateleira de 20 metros só com six-packs de Super Bock! Ao cantinho ou nas prateleiras de baixo lá estão alguma Guinness, Grolsch ou Tuborg. E ponto final. Se quiser saber a variedade que os nossos vizinhos europeus têm ao seu dispor, aconselho-vos a irem ao supermercado do Corte Inglês. Apesar de algo caro e de ter pouca representatividade de cervejas de determinadas áreas do mundo, nomeadamente do Reino Unido, este deveria ser um exemplo a seguir pelos outros super/hipermercados portugueses. e porque não o fazem?

Voltamos então à história da canibalização. É facilmente constatável que a Unicer e a Centralcer são duas grandes firmas do tecido empresarial português. Para além das cervejas, produzem águas, sumos e refrigerantes. Como tal, oferecem um "pacote" extremamente competitivo aos cafés, lojas e supermercados, limitando a entrada de novos rivais neste segmento. Não acredito numa situação de cartel, mas ninguém pode negar a existência de um oligopólio. As poucas empresas que ousaram desafiar estes gigantes nunca conseguiram mais do que vendas residuais, encontrando-se algumas em situação económica difícil (veja-se a Cintra e a Tagus/Cereuro). Com o lançamento destes novos produtos (tango, chopp, green, etc), as dominadoras mais não fazem do que apertar o cerco à volta destas novas competidoras, dificultando-lhes ainda mais a entrada no mercado e o sucesso nas vendas. E a asfixia continua.

Explicado o problema, deveria entrar numa fase de tentativa de encontrar soluções. Mas tal não se afigura fácil. Passarmos a comprar Coral, Tagus e outras cervejas que não Sagres e Super Bock? Acho que tal movimento seria residual e, verdade seja dita, a qualidade das cervejas é muito semelhante, pelo que optar por uma ou por outra não me traria um grande benefício pessoal. Resta-me ir importando algumas cervejas (a preços exorbitantes, claro) e esperar que o mercado funcione. Não sei é se isso acontecerá ainda durante a minha geração....


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bmxutos
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Mensagempor bmxutos » quarta jul 26, 2006 14:47

Caro RTS,

muito obrigado pelo seu artigo de fundo. É um excelente relato não só de um estado de alma, mas simultaneamente do real estado do mercado de cervejas em Portugal.

Acho, aliás, uma excelente ideia as pessoas expressarem a sua opinião sobre o que pensam sobre todos os temas que envolvem a cerveja e não só. Como disse, falar sobre cerveja é quase tão importante como degustá-la.

Só me resta agradecer-lhe pelo seu excelente contributo já que soluções, como as pede, também tenho dificuldade em encontrar.... :cry:

Um abraço.


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Cerbejolas
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Mensagempor Cerbejolas » quinta ago 03, 2006 15:24

Pois, concordo em grande parte com a opinião do RTS. No entanto, é difícil mudar as coisas, pelo menos enquanto não tivermos outras opções para escolher....

Prefiro beber uma sagres ou até uma super bock a qualquer bud, heineken, carlsberg e afins. Não acho que sejam melhores e pelo menos tou a beber algo português e que é, em geral, mais barato.

é claro que gostaria de ter mais opções para poder escolher mas isso também depende das empresas estrangeiras quererem investir em Portugal! Ou não?

Cheers!


RTS157
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Mensagempor RTS157 » quinta ago 03, 2006 16:26

Caro Cerbejolas,

independentemente de perceber a sua posição e de, entre as cervejas estrangeiras que enumerou, não ver grandes benefícios entre escolher uma Bud, uma Carlsberg ou uma Sagres, já que a qualidade destas é muito semelhante, a parte relativa à nacionalidade das cervejas já é mais delicada.

De facto, há, por vezes, a tendência de se escolher determinado produto apenas por que é nacional. E se, no geral, não me oponho a esta ideia - antes pelo contrário - importa, deste modo, identificarmos a estrutura accionista das empresas.

Acredito que não ficará muito surpreendido se lhe disser que a Centralcer é controlada pelo gigante Scottish & Newcastle. Como tal, não é uma empresa portuguesa. É claro que tem fábricas em Portugal, aposta em trabalhadores portugueses e é um factor importante no desenvolvimento do país. Mas, analisando friamente o seu núcleo accionista, constata-se definitivamente que não é portuguesa. Patrocina a Selecção Nacional de Futebol e já é bastante bom!

Quanto à Unicer, é detida a 44% pela Carlsberg e os restantes 56% pertencem a uma holding, a Viacer, composta por três grupos portugueses: Violas (46%); Arsopi (28%) e BPI (26%). Ou seja, esta empresa ainda é maioritariamente portuguesa. Dito isto, convém referir que não estou a sugerir às pessoas para que bebam Super Bock apenas porque é "mais" portuguesa. São apenas factos e números.

Quanto ao resto, concordo plenamente consigo: gostaria de ter mais opções de escolha. Relativamente a isto, vamos a ver como evolui o mercado.


beertruck
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Mensagempor beertruck » segunda ago 07, 2006 19:12

Caro RTS157,

Concordo em parte com a sua opinião. Por um lado, lamento que a canibalização do mercado português por si referida possa levar ao desaparecimento de algumas das empresas que apareceram nos últimos tempos a lutar contra a hegemonia quase totalitária dos dois grandes "players" do mercado cervejeiro português (embora me pareça que o objectivo desta "guerra das cervejas" dos dois últimos anos seja ganhar quota de mercado à concorrência directa e não tanto canibalisar os "pequenos").
No entanto, acho que a introdução destas novas cervejas no mercado por parte da Unicer e Centralcer foi mais benéfica do que prejudicial para o consumidor, na medida em que os produtos por eles introduzidos no mercado são "mais diferentes" e, em minha opinião, mais interessantes do que os das novas/pequenas empresas que pouco se diferenciavam do dos grandes produtores (estas novas empresas acabam por ser afectadas porque os seus clientes-alvo, que, no fundo, eram aqueles que, como nós, querem produtos diferentes, têm agora à sua disposição os tais produtos "mais diferentes").
No fundo, os produtos canibalizados acabam por não se diferenciar assim tanto dos já existentes (e que dominam o mercado) e acho que ficamos melhor com uma Bohemia e sem uma Cintra (apesar de a primeira ser a do canibal e a segunda, da vítima).
Nós, amantes de cerveja, temos realmente a ganhar é se aparecerem no mercado produtores que sejam entusiastas de cerveja e que produzam cervejas diferentes e de qualidade e não com empresas que lutam com as mesmas armas dos gigantes do mercado. Se este cenário é possível, é que já não sei...


RTS157
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Mensagempor RTS157 » terça ago 15, 2006 23:56

Caros amigos,
ainda bem que a minha prosa levantou algum debate sobre o tema que discorri. Estava com receio de ser enfadonho ou do assunto fugir completamente aos interesses dos participantes deste fórum.

Agradeço as palavras do bmxutos, cerbejolas e beertruck. Apenas uma palavra para este último, também para lhe referir que concordo consigo em grande parte do que disse o que, aliás, não se desaqua em nada àquilo que já no texto mencionei. No entanto, continua a preocupar-me esta nova febre de lançamentos levada a cabo pelas duas gigantes. Se, por um lado, e tal como referiu, isso possibilita a introdução de produtos novos e diferentes do habitual (o que é bom), por outro não vem acrescentar grande coisa a um apreciador de cerveja. De facto, lá por ser diferente, será que posso apreciar uma Super Bock Tango ou Green? São o quê? Refrigereantes ou cervejas? Procuram imitar as inigualáveis cervejas de fruta e lambics belgas ou são um produto completamente novo? E a Bohemia e a Abadia? É óbvio que, principalmente a primeira, representa um esforço, uma tentativa de apresentar um produto com mais qualidade, melhor pensado, com um copo próprio, etc, etc. Mas será que é assim tão boa? Acaba por ser, para o que vamos tendo por cá. Mas continuo a ser exigente e parece-me que não se pode esperar grande coisa quer da Centralcer quer da Unicer. Talvez só uma "revolução", como a que aconteceu no Brasil, país onde, em dez anos, surgiram dezenas de pequenas cervejarias, com excelentes produtos, diferentes e com qualidade. Basta ver os casos da Baden-Baden e da Eisenbahn. Fico à espera (apesar de pouco esperançado) que tal também aconteça no meu pais.

Um abraço a todos os amantes da cerveja.


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Mensagempor beertruck » quarta ago 16, 2006 19:38

RTS157 Escreveu:Acaba por ser, para o que vamos tendo por cá. Mas continuo a ser exigente e parece-me que não se pode esperar grande coisa quer da Centralcer quer da Unicer. Talvez só uma "revolução", como a que aconteceu no Brasil, país onde, em dez anos, surgiram dezenas de pequenas cervejarias, com excelentes produtos, diferentes e com qualidade. Basta ver os casos da Baden-Baden e da Eisenbahn. Fico à espera (apesar de pouco esperançado) que tal também aconteça no meu pais.

Um abraço a todos os amantes da cerveja.


Caro RTS157,
Também não espero grande coisa da Centralcer e Unicer. Concordo que a revolução só pode acontecer quando aparecerem os micro-produtores. Pode ser que o recente livro de Francisco José Viegas e este forum sejam de alguma forma percursores de uma nova comunidade cervejeira em Portugal e que essa revolução comece a ser feita aos poucos.
Um abraço.


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Escaravelho
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Mensagempor Escaravelho » sábado ago 19, 2006 22:43

Pois, essa questão da viabilidade em Portugal de micro-cervejeiras com produtos de qualidade, realmente diferentes dos já existentes, é uma questão pertinente. Ou seja, se um dos grandes grupos apostasse na produção de uma cerveja ale de qualidade (por exemplo), quase de certeza que essa cerveja seria um sucesso. Primeiro o vulgar consumidor de cerveja estranharia, muito mais do que estranhou com a Bohemia, e mesmo o lançamento prévio desta no mercado contribuiria para um suavizar da reacção a uma cerveja ainda mais diferente, mas depois o consumidor com algum critério aderiria certamente com entusiasmo, estou convencido. Aqui, o papel das grandes cervejeiras até se torna de certo modo o de um educador: visto que dominam largamente o mercado, havendo pouco espaço para a concorrência, têm o poder de conseguir educar o vulgar consumidor de cerveja lançando produtos realmente novos para a realidade portuguesa (que até poderiam ser uma cópia, mais ou menos evidente, de uma determinada cerveja estrangeira de qualidade). Aliás, o sucesso estrondoso da Bohemia, e já li algo sobre isso, prova uma certa avidez de produtos novos ao nível da cerveja numa certa camada da população. O problema é que essa avidez nem sempre é manifesta mesmo a quem a tem. Com isto quero dizer que a Bohemia quando foi lançada não foi desde logo procurada por quem agora a consome regularmente, mas porventura apenas por quem com alguma cultura cervejeira sabia que ali estava um produto potencialmente com qualidade e quis desde logo experimentá-lo. Do resto do mercado, encarregou-se a publicidade. A questão então é: se a mesma cerveja fosse lançada por uma empresa independente, o que aconteceria? Ou seja, sem orçamentos maciços para publicidade sobreviveria? É claro que também se poria a questão da distribuição. De toda a maneira, estou certo que há uns anos atrás não, mas talvez agora sobrevivesse, depois do lançamento dos novos produtos referidos, que dentro de certa forma desbravaram terreno, pese embora a maioria sem qualidade.

A verdade é que, se fosse (ou me tornasse) empreendedor, provavelmente gostaria de apostar nesse ramo, completamente virgem em Portugal.

Fará algum sentido o que escrevi?


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Mensagempor bmxutos » domingo ago 20, 2006 1:10

Caro Escaravelho,

o que referiu não só faz (muito) sentido, como é pertinente e foca muitos aspectos importantes, nomeadamente no que toca ao lançamento de uma cerveja de qualidade. Acredito piamente que se alguma das grandes empresas de cerveja portuguesa apostasse num produto de qualidade, ele teria sucesso no nosso mercado. Eventualmente, tal não seria imediato. Mas e como muito bem disse, com o desbravar de caminho que está a ser feito pela Bohemia e pela Abadia, acho que rapidamente conquistaria uma fatia de mercado bem superior a novos produtos como a Green, Tango, Weiss ou Chopp.

Então e porque é que essas empresas não fazem isso? Essa é que me parece a questão fulcral e para a qual não tenho uma resposta directa e concreta. Apenas algumas ideias e suposições. A saber: para se fazer uma cerveja de qualidade, é preciso ter um bom cervejeiro que supervisione o processo de produção e que vá fazendo acertos na receita até se obter a mistura pertendida. Tal não me parece muito complicado. Veja-se o caso da Centralcer. Fazendo parte do universo da Scottish & Newcastle, não será, com certeza, muito difícil encontrar uma pessoa dentro do grupo com capacidades para elaborar tal cerveja. Aliás, uma companhia que produz cervejas como a Beamish, Ciney, Grimbergen ou a John Smith's não terá muitas dificuldades em adaptar uma boa receita a um determinado país. Portanto, este não será um motivo muito plausível.

Por outro lado, a produção de uma boa cerveja implica gastar um pouco mais de dinheiro. Utilizar água, caramelo, um bocadinho de malte e lúpulo é capaz de ficar bem mais barato do que utilizar boas quantidades de malte e lúpulo, capazes de transmitir a uma cerveja sabor e carácter. Para além do mais, as nossas cervejas sempre se basearam no estilo lager, mais rápido de produzir e com menores custos. Presumo que as empresas tivessem de fazer algumas adaptações para conseguir produzir uma ale. Portanto, será um problema de dinheiro? Muito dificilmente. Acredito que por uma cerveja custar mais 0.5€ não deixaria de ser consumida, pelo menos pela larga camada da população que pretende beber algo diferente e com qualidade. Quando se sai à noite, quanto é que se paga por uma imperial numa discoteca ou bar? 2.5€, 3€? Logo, acho que, durante o dia, não haveria dificuldades em pagar 1.5€ por uma cerveja, desde que soubéssemos que era um bom produto. Assim sendo, a questão monetária também me parece uma razão menor.

Então o que impede as grandes cervejeiras de lançar um bom produto? Será que por as vendas irem de vento em popa acham que não vale a pena apostar em cervejas com mais qualidade? Sinceramente não sei.

Talvez algum membro do fórum possa ter uma resposta mais concreta para todas as questões que o texto de Escaravelho lavanta...

Cumps a todos.


mitos
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Mensagempor mitos » quarta ago 23, 2006 14:43

ora aqui está uma (mais uma) questao fascinante sobre o estranho (ou talvez não) mundo da cerveja em portugal.

um aparte: sou professor de marketing na universidade e dou frequente/ o exemplo do mercado da cerveja em portugal como ilustrativo de vários fenomenos, tentando entender e arranjar explicações. isto mostra plo menos o interesse do tema.

tudo o q foi aqui referido faz mto sentido, e quase tudo tem uma explicação. acho q vou arriscar algumas (q por deformaçao profissional se baseiam no marketing, sorry):

1. a primeira é so uma pequena correçao, é uma questao de conceito de marketing q se calhar nem tem mto interesse. canibalizaçao é qd o lançamento duma marca reduz as vendas de outras marcas da mesma empresa, nao qd evita ou dificulta o lançamento de marcas de outras empresas. tá explicado.

2. grande parte do q foi referido como incompreensivel ou inadmissivel resulta do facto de cultural/ nós sermos um país de vinho (o tal q dá de comer a 1 milhao de portugueses) e nao de cerveja. em inglaterra ou na alemanha o panorama é o inverso (a questão dos corredores num hipermercado confirma-o).

3. outro aspecto relevante q nao deve ser esquecido é o facto de durante a ditadura nao ser permitido a empresas 100% estrangeiras operarem em portugal e como tal as nacionais terem tido meio seculo pra construirem o seu confortavel duopolio q é agora mto dificil (ou impossivel) de furar. agora dominam o mercado e fazem o q querem. qd as multinacionais quiseram entrar no mercado portugues foi mais facil faze-lo comprando parte das empresas nacionais, q é a situação actual.

4. esta falta cultura cervejeira reflecte-se na mentalidade das cervejeiras nacionais, q acham q apostar na variedade é misturar aroma de limao ou corante vermelho à cerveja ou fazer garrrafas maiores e mais pequenas. no entanto estas mistelas tem como objectivo (de marketing, la está) aumentar a base de consumidores, cativando aqueles q hoje nao bebem cerveja pq nao gostam da oferta existente (e possivelmente nao gostam de cerveja. o objectivo é o lucro (como empresas q sao) e não propria/ satisfazer nichos de consumidores (como nós) q sao quase sempre pouco rentaveis.

5. inovaçoes como a bohemia (boa) ou a abadia (uma má resposta à concorrente) são de facto passos timidos mas plo menos é um começo. a ver vamos se o sucesso de vendas conseguido os incentiva a novos voos. como foi referido os orçamentos de comunicaçao nestes lançamentos sao brutais e nao disponiveis pra qq um. Outro exemplo é a cristal weiss (q eu pessoal/ acho q está entre o mediano e o mediocre).

6. outras marcas nacionais (infelizmente votadas ao fracasso = volumes de vendas pequenos) sao, no melhor dos casos, variedade de sabor mas dentro do mm tipo, ou de tipos mto semelhantes, nao estou certo ate q ponto podem ser classificadas de inovaçao. inovaçao é uma coisa, variedade é outra. ambas sao desejaveis e benvindas.

7. resta-nos por ultimo o consolo de pelo menos as duas marcas de cerveja q temos sempre à disposição nao serem nada más (em espanha por exemplo já nao têm a mm sorte).

e acho q é tudo. resumindo: tudo isto nos chateia um bocado enquanto apreciadores de cerveja, mas nós somos de facto uma minoria, e geral/ estas coisas tem como criterio o lucro (a menos q a santa casa da misericordia começe a fazer cerveja ;-) )

espero q a discussao continue ;-)


RTS157
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Mensagempor RTS157 » sexta ago 25, 2006 0:31

Amigo mitos, a sua análise é fascinante. Como complemento às também excelentes opiniões do escaravelho e do bmxutos, parece-me que começamos a ter aqui uma análise não tão superficial quanto isso ao mercado de cervejas de Portugal.

Hoje gostaria de me debruçar particularmente sobre aquilo que diz no ponto 4. A nossa falta de cultura cervejeira é, de facto, um fenómeno histórico. Para além dos três f's, eu diria que Portugal foi, durante grande parte do século XX, um país baseado não só neles mas também no v de vinho. O mais curioso é que apesar da grande importância que este tinha nas nossas vidas e alimentação, a sua qualidade era tremendamente baixa. Só no último quarto de século passado se começou a apostar, ainda que timidamente, na qualidade do vinho que por cá se produzia, fenómeno que, infelizmente, não se propagou às cervejas.

E essa é uma das grandes críticas que podemos fazer as empresas cervejeiras portuguesas: a inércia que mantiveram durante largos anos.
Se é verdade que, actualmente, o lançamento de novos produtos veio dinamizar um sector que todos sabem em franco crescimento, não consigo deixar de pensar nos muitos anos em que nada foi feito.

Para além do mais, esta pequena revolução não é um fenómeno exclusivo da indústria cervejeira. Acho mesmo que, se os outros sectores da área alimentar não estivessem a apostar tanto na inovação e na publicidade, as cervejarias manteriam a mesma situação por muitos mais anos. Todavia, e como disse o mitos, torna-se importante cativar pessoas que habitualmente não consomem cerveja. De facto, perante o lançamento de águas com sabores, até aos chás com frutas, sumos com leite, sumos de soja, bebidas energéticas e soft drinks que misturam vodka (e outras bebidas alcoólicas) com sumo, as grandes cervejeiras não podiam ficar impávidas e serenas a verem os seus consumidores habituais a trocarem os seus produtos por outros. Tinham mesmo que se mexer, perdoe-se-me a expressão. portanto, parece-me que este movimento de "novas" cervejas acabou por ser mais de reacção do que de acção. É claro que, independentemente de todas as análises que se possam fazer, isso é melhor que nada.

O que é que falta então? Já que, pelos vistos, estas empresas vão lá mais pela reacção do que pela iniciativa directa, seria importante surgir no nosso mercado uma ou duas boas cervejas, de produção estrangeira ou nacional), com boa distribuição e com uma campanha publicitária adequada e abrangente. Talvez então as ditas acordassem e começassem a lançar produtos com qualidade superior pois, apesar de melhores, as bohemias e abadias ainda estão longe do que se faz por essa Europa fora.

Cumps.


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Mensagempor RTS157 » sexta ago 25, 2006 0:34

Amigo mitos, a sua análise é fascinante. Como complemento às também excelentes opiniões do escaravelho e do bmxutos, parece-me que começamos a ter aqui uma análise não tão superficial quanto isso ao mercado de cervejas de Portugal.

Hoje gostaria de me debruçar particularmente sobre aquilo que diz no ponto 4. A nossa falta de cultura cervejeira é, de facto, um fenómeno histórico. Para além dos três f's, eu diria que Portugal foi, durante grande parte do século XX, um país baseado não só neles mas também no v de vinho. O mais curioso é que apesar da grande importância que este tinha nas nossas vidas e alimentação, a sua qualidade era tremendamente baixa. Só no último quarto de século passado se começou a apostar, ainda que timidamente, na qualidade do vinho que por cá se produzia, fenómeno que, infelizmente, não se propagou às cervejas.

E essa é uma das grandes críticas que podemos fazer as empresas cervejeiras portuguesas: a inércia que mantiveram durante largos anos.
Se é verdade que, actualmente, o lançamento de novos produtos veio dinamizar um sector que todos sabem em franco crescimento, não consigo deixar de pensar nos muitos anos em que nada foi feito.

Para além do mais, esta pequena revolução não é um fenómeno exclusivo da indústria cervejeira. Acho mesmo que, se os outros sectores da área alimentar não estivessem a apostar tanto na inovação e na publicidade, as cervejarias manteriam a mesma situação por muitos mais anos. Todavia, e como disse o mitos, torna-se importante cativar pessoas que habitualmente não consomem cerveja. De facto, perante o lançamento de águas com sabores, até aos chás com frutas, sumos com leite, sumos de soja, bebidas energéticas e soft drinks que misturam vodka (e outras bebidas alcoólicas) com sumo, as grandes cervejeiras não podiam ficar impávidas e serenas a verem os seus consumidores habituais a trocarem os seus produtos por outros. Tinham mesmo que se mexer, perdoe-se-me a expressão. Portanto, parece-me que este movimento de "novas" cervejas acabou por ser mais de reacção do que de acção. É claro que, independentemente de todas as análises que se possam fazer, isso é melhor que nada.

O que é que falta então? Já que, pelos vistos, estas empresas vão lá mais pela reacção do que pela iniciativa directa, seria importante surgir no nosso mercado uma ou duas boas cervejas, de produção estrangeira ou nacional), com boa distribuição e com uma campanha publicitária adequada e abrangente. Talvez então as ditas acordassem e começassem a lançar produtos com qualidade superior pois, apesar de melhores, as bohemias e abadias ainda estão longe do que se faz por essa Europa fora.

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Mensagempor mitos » sexta ago 25, 2006 10:13

Ola Caríssimo rts157

Concordo plena/ consigo qt à critica de imobilismo das cervejeiras. Penso que ainda nao se mexeram pq nao precisam. O duopolio garante-lhes que nenhum grande concorrente estrangeiro entra no mercado com produtos de qualidade. Caso contrário o panorama seria diferente.

Acho q se trata um pouco duma pescadinha de rabo na boca, ou a historia da galinha e do ovo: eles nao apostam e inovam mais pq nao ha consumidores e nao ha consumidores pq os produtos existentes tb nao cativam. Triste mas verdade.

Agora q ficavamos todos muito a ganhar com o aparecimento de cervejas artesanais portuguesesas de boa qualidade isso ficavamos. Basta para isso ver o bom exemplo da cerveja artesanal (e sazonal) da Republica da Cerveja. Seria so engarrafa-la e distribui-la.

A ver vamos como isto evolui, pode levar tempo, mas vai lá. Ai isso vai.



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